terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O “Auto-Evangelho” Egoísta

O Neopentecostalismo tem gerado, especificamente no Brasil, um gama de congregações, ministérios e reuniões denominadas cristãs de todos os tamanhos, formas, hábitos e usos e costumes. Antigamente dizia-se que era demasiadamente fácil encontrar advocacias e consultórios odontológicos em “qualquer esquina”. Hoje, em qualquer cidade de 2.000 habitantes até as grades metrópoles o foco se alterou. O negócio do momento é “montar uma igreja”, é “ser pastor”. Um fruto cruel principalmente do neopentecostalismo, que forma pastores e membros lastimáveis no que tange a intimidade e conhecimento daquilo que se proclamam seguir.

Para consolidar as teorias, basta uma análise introspectiva. Quantas vezes lemos a bíblia durante o dia? Ou, quantos livros lemos durante o ano? Quantos artigos de exegetas buscamos para respaldar e saciar nossa sede de conhecer? Mas, que sede? Ou melhor, o que são exegetas? O Índice de Leitura no Brasil realizado em 2008 apontou que uma pessoa com idade superior a 15 anos lê, em média, 4,7 livros por ano no Brasil. O fato foi amplamente comemorado, já que a mesma pesquisa revelou que no ano de 2001 tal média foi de 1,8 livros por ano. Mas comemorar o que?

E por que mencionar estes fatos?

Fatos como esses também são refletidos claramente no meio cristão. Realmente os cristãos da atualidade têm vivido ao pé da letra o versículo que diz que “a fé vem pelo ouvir [...] a palavra de Deus.” (Romanos 10:17). Elege-se um sumo sacerdote, cujo qual é o único que tem acesso absoluto às verdades de Deus, aquele que de forma alguma pode ser contestado, aquele que futuramente irá te frustrar profundamente com escândalos e pecados que vive em sua vida de orgulho e ego inflado. Um ego criado por ele próprio e alimentado por cristãos leigos e sem censo crítico.

“Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem.” (Salmos 32:9)

Bom, mas a negligência do povo de Deus em entender as raízes daquilo que segue é tema para outro artigo. O fato em questão é que têm sido formados novos cristãos, ou melhor, novos “crentes”, em respeito ao real valor do termo cristão. O evangelho oferecido nas congregações (uso este termo também em respeito ao real valor da palavra igreja) se resume em apenas uma palavra: RECEBER. “Venham pra minha igreja, e vocês serão abençoados para a direita, para a esquerda, para frente e para trás...” Um evangelho mentiroso, um Jesus que tudo dá, um Jesus que faz você ser rico (desde que você deposite a oferta de R$ XX e ganhe gratuitamente a Bíblia da Prosperidade). Por isso “montar uma igreja” se tornou um ótimo negócio. É o meio mais rápido de se auferir rendas alheias de pessoas leigas munidas apenas de uma vontade insaciável por dinheiro. A vontade de Deus é que você seja rico! É que você more em uma ótima casa, tenha o melhor carro. Mentira melhor não poderia ser, ainda mais quando percebe-se na própria palavra que o próprio Jesus nem tinha “onde recostar sua cabeça...” (Mateus 8:20). Tanto Jesus como os apóstolos em suas jornadas terrenas contavam sempre com a colaboração dos fiéis para seu próprio sustento (Atos 2:44-47). Não há registros em todo Novo Testamento de um Jesus ou de apóstolos abastados em riquezas. Isso é mentira! Uma grave mentira pregada nos púlpitos de grandes ministérios, com seus grandes palácios cheios de pessoas completamente vazias. Congregações que crescem em comprimento apenas, mas não crescem em profundidade. Cristãos rasos, que diante da primeira adversidade da vida serão os primeiros a apostatarem algo que na verdade nunca seguiram. Pastores munidos de um evangelho falso e interesseiro, que eles próprios sabem que é passageiro, que não solidifica.

Mas a gravidade maior está no uso do Nome de Jesus para respaldar essas teorias. A grande parte dos pregadores do “ego inflado” utilizam erroneamente a passagem de João 14:13-14 para disseminar sua sede insana e interesseira. Vejamos:

“E tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, vo-lo farei, para que o Pai seja glorificado no Filho. Qualquer coisa que me pedirdes em meu nome, vo-lo farei.”

Analisado fora de contexto com o restante da Palavra realmente fica extremamente fácil convencer leigos e iletrados. Se pedirmos para ser ricos, em Nome de Jesus, o seremos. Se pedirmos um carro, em Nome de Jesus, o teremos. Mas e se, em complemento deste versículo, utilizarmos o que está escrito em 1 João 5:14:

“A confiança que depositamos nele é esta: em tudo quanto lhe pedirmos, se for conforme à sua vontade, ele nos atenderá.”

Agora sim! A mentira foi desfeita, totalmente aniquilada. Não que Iahweh não deseje que você fique rico, mas isso é a vontade D’Ele para aquele determinado momento de sua vida? Sem mais delongas, fica claro que nossa vida deve ser baseada e moldada de acordo com nossos desejos e vontades (pois todos temos sonhos e objetivos), mas antes de tudo, devemos nos basear e nos solidificar na Vontade do Senhor. A primazia deve ser a Vontade do Senhor. “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo.” (Mateus 6:33). A primazia de tudo em nossas vidas é o Senhor, é o Reino de Deus. As coisas quais necessitamos para nosso viver diário, Ele proverá. Em todo o Novo Testamento, na interpretação fiel da Palavra, não há registros sequer de promessas de prosperidade e riquezas. Comer o melhor desta terra não arremete a riquezas, arremete ao cuidado do Senhor para com os seus. Como Jesus poderia prometer uma vida em abundância, e ao mesmo tempo nos alertar de perseguições que sofreremos, de como seremos humilhados? Jesus nos promete uma vida em abundância de frutos do Espírito (vide Galátas 5), que foram a base de toda a sua vida terrena.

Fuja deste evangelho falso, interesseiro e contrário ao que Jesus viveu e ao que os pais da igreja viveram. Leia os evangelhos, e perceba que aqueles que foram chamados, foram chamados para uma guerra. Observe a morte de Jesus, observe a morte dos apóstolos. Fomos comissionados a perder nossa vida em favor do Evangelho (Mateus 10:39).

“Pois todos os que quiserem viver piedosamente, em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição.“ (2 Timóteo 3:12)

Estude a bíblia, estude a vida de Jesus e dos apóstolos. Estude a história da Igreja e conheça ao que realmente você está sendo chamado. Seja como os bereanos (Atos 17:11). Jesus não te chamou para congregar em um palácio com cadeiras almofadadas e um som de alta qualidade, outrora, Ele te comissionou para ir aos enfermos, aos doentes e àqueles que realmente necessitam (Mateus 9:12). Saia das quatro paredes, afaste o comodismo, estude a Palavra, a única capaz de fazê-lo diferente, de moldá-lo no verdadeiro Cristianismo.

Renda suas vontades e desejos à Vontade Maravilhosa de Jesus e contemple que o “melhor dessa terra” é estar com Ele. Entregue sua vida ao senhorio de Jesus, abandone a vida cômoda do “Eu”, para que um dia você não se decepcione com uma de suas orações não atendidas e receba um sorriso amarelo de seu pastor dizendo apenas: “Deus disse não”.

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